BATALHÃO DE CAÇADORES 3843

sábado, 24 de abril de 2021

SOMOS FILHOS DO MESMO PERCURSO

Somos filhos do mesmo percurso em Março de 1971, estávamos a formar Batalhão em Santa Margarida. 

Á noite quando tentávamos dormir havia entre nós um primeiro cabo Miliciano, que dava pelo nome de Silvério Horta, da C.C.S.


Este nosso Amigo adorava bater á porta do quarto do primeiro sargento Careto. Era certo e sabido que o primeiro sargento ia reagir, pois isto passava-se todas as noites. 

De seguida entrava no nosso quarto onde todos dormíamos (de olhos abertos), alguns até ressonavam. O dito primeiro sargento, falava, falava e cada vez mais alto, até que o nosso amigo Horta gritava lá do fundo: “Ó meu primeiro faz favor podia falar mais baixo que eu quero dormir, amanhã vou dar instrução tenho que descansar”. O primeiro Careto dizia:

"Ó nosso primeiro cabo Miliciano Horta, o senhor está a falar num DIAPASÃO muito alto para o meu gosto”. 

Gargalhada geral. 

Ora vejam nós na primeira comissão e o primeiro Careto já a caminho da quarta comissão, isto era o MACACO a querer enganar o MACACÃO. 

Ao Horta um Grande ABRAÇO do Fidalgo da 3357 e muita saúde para todos os teus.

terça-feira, 20 de abril de 2021

AMIGOS HÁ CINQUENTA ANOS

Foi no dia 21 de abril de 1971 que o velho Niassa partiu do Cais de Lisboa, levando-nos a Moçambique; bodas de ouro, não propriamente para celebrar, mas para recordar um tempo que nunca passou despercebido a cada um dos homens do BCaç. 3843. Uma amizade que amadureceu, tendo começado no RI 15 em Tomar. O já impróprio Niassa não tendo as condições dignas para transportar pessoas, foi um espaço de relações humanas a que não deixaremos de ser sensíveis.

Passado este longo tempo, hoje quero dirigir uma palavra amiga e uma saudação a todos os que fizeram parte deste contingente militar, particularmente o nosso Batalhão e a companhia de intervenção dos Madeirenses que se juntou à CCS, na Chipera, pouco tempo depois.

Embora estivesse a “residir” na CCS, na Chipera, mantive com frequência algum contacto, nas visitas que fazia, com a 3355 da Estima e a 3357 da Chiringa. Sempre recordarei muitos acontecimentos passados nestes espaços da vida militar em ambiente de prevenção. Não deixarei de lembrar o Capitão Melo da Estima, o Capitão Raimundo e o alferes Mendes da Chiringa que infelizmente já não estão meio de nós; o mesmo aconteceu já com o Capitão Rodrigues e o Tenente Silva da CCS e tantos outros que sempre terei na minha memória. Não posso também esquecer a Companhia 3356 de Cantina de Oliveira que foi connosco e o seu Capitão Jeremias que também já partiu, este de modo violento. Lembro ainda os alferes Gaspar de Leiria e Medeiros de Pombal, que também já partiram há alguns anos; e outros cujos nomes não consigo lembrar.

Quero transmitir uma palavra de amizade e de reconhecimento ao nosso Comandante Coronel António Lopes Figueiredo, pela sua proximidade, frontalidade, pedagogia militar e compreensão dialogante. O mesmo digo do Coronel Emídio Sousa Vicente, diferente certamente, mas um Militar com dignidade e frontalidade na relação com todos. Recordo ainda todos os Oficiais, Sargentos, Furriéis, Cabos e Soldados com quem tantas vezes estive e dialoguei, nas referidas Companhias, em todos os momentos difíceis e também em todos os momentos de descontração. Embora a minha missão fosse diferente era complementar. Com todos muito aprendi. A todos peço desculpa pelo que devia ter feito de melhor.

Os que já partiram, pertencentes às várias companhias, quer os que tombaram naquelas terras quer os que já faleceram depois de regressarem, que estejam em paz e que todos nós aprendamos com eles. A todos recordamos nas Eucaristias dos nossos encontros anuais.

Há cinquenta anos partimos sem saber o que nos iria acontecer… mas muitos de nós hoje continuamos a viver… recordando tantos momentos, alguns bem difíceis; queremos manifestar uma atitude de gratidão uns aos outros e todos a Deus. Fomos e viemos; mas agora a nossa luta é outra.

Hoje não quero discutir a guerra por que passámos; quero apenas pensar naquelas vidas sempre em perigo certamente, com a coragem nem sempre reconhecida, mas nunca esquecida. Momentos difíceis, alguns, mas que fizeram criar amizades, que nunca o tempo apagará. A amizade iniciada em momentos difíceis, nunca mais tem fim; ajudar-nos-á na luta da vida e no fazer caminho constante.

Lembro também alguns acontecimentos, não meramente pontuais, mas decorrentes da nossa estadia ali e que ainda hoje recordamos:

Era interessante ver aquelas filas de crianças e jovens que todos os dias, logo após as refeições, acorriam ao aquartelamento com os recipientes muito primitivos para levaram uma sopa. A sua alegria era bem clara e a nossa de alguma forma também.

A distribuição de roupas e outras ofertas que fazíamos algumas vezes ao longo do ano, junto à capela, cavada no embondeiro. Mais uma obra, não de arte, mas do trabalho de equipa. O que fizemos na escola primária, que no espaço dum ano quadruplicou o número de crianças. As várias ações com as populações, desde a preparação para a agricultura nos campos, onde os nativos podiam semear o milho, a captação de água e tantas outras ações, que só nos dignificaram.

Na parte final da nossa missão, agora na Zambézia, a camaradagem descontraída, os mergulhos na piscina e as “bazucas” que bebíamos e tantos outros momentos continuam gravados na nossa memória. Aquela terra rica do chá licungo, cuja área era sensivelmente igual à de Portugal Continental, sem ambiente de guerra, foi para todos nós uma descontração e até uma atitude lúdica. 

Tantos acontecimentos que, se fossem escritos, dariam um bom livro para nos abrir mais os horizontes da nossa vida e de muitos dos nossos amigos.

Que os nossos encontros anuais, por enquanto confinados, possam recomeçar. São sempre momentos únicos para lembrar o que passou e reforçar a amizade que continua a animar-nos.

Para todos um grande abraço com os votos de muita saúde, bastante descanso e o dinamismo de quem quer continuar a viver. 

O ex-Capelão

P.e Augusto Gomes Gonçalves


 



terça-feira, 13 de abril de 2021

GRANDE HOTEL DA BEIRA




Só lá estive uma noite em 73. Tinha acabado de chegar da picada depois de fazer mais de 500kms.

Estava todo cheio de pó da picada e não me queriam deixar entrar, como é óbvio. Naquele estado não entrava em lado nenhum.

No entanto depois de alguns esclarecimentos na gerência, sobre o motivo de estar naquele estado lá pude subir e tomar um banho gostoso.

Eu tinha feito todo o percurso de jeep com algumas paragens para reabastecimento de combustível, pelo meio.

O restante da companhia viria de autocarro e só mais tarde, pela noite dentro é que chegou.

Depois de bem lavado e perfumado, ainda tive tempo para jantar na baixa e assistir a uma sessão de cinema.

No outro dia lá embarcados para Lisboa.

Hoje apresento aqui uma coletânea de imagens da autoria de “Aurélio le Bom”, que mostram em "exposição" a triste imagem das "ruínas" daquele que foi um Grande Hotel de referência em Moçambique.

Milhares de pessoas das mais diferentes idades e origens e dos mais diferentes pontos do mundo reagiram com carinho e amor aos “posts" do autor  sobre o "grande hotel" na cidade da Beira.


















terça-feira, 6 de abril de 2021

O MEU PAI

 Já era para ter escrito isto há algum tempo mas mais vale tarde do que nunca. É um assunto controverso para muitos, mas não para mim, que indirectamente, senti na pele, de certo modo as consequências de uma guerra sem razão. É um assunto que é muito pouco falado.

Cresci a ouvir que o meu pai e os meus tios lutaram no Ultramar. Ouvi as histórias daquela altura principalmente, pela boca da minha mãe, que sofreu por ter 2 irmãos na guerra e um outro irmão sempre na iminência de ir até ter-se dado o 25 de Abril. 

O meu pai praticamente não me contava nada, apenas que foi para Moçambique em 71 e voltou em 73, mostrava-me as fotos que ele guardava mas só quando eu lhe pedia, e lá me dizia os nomes dos amigos e de locais  como Tete, Vila Junqueiro, Beira, Lourenço Marques, Vila Manica, Chicoa, que se calhar se não fosse ele nunca iria saber. Nos tempos livres jogavam à bola, futebol ou andebol, era o que ele mais gostava de fazer. Pouco mais dizia.

Só quando eu já era maior me explicou a cicatriz na perna e percebi porque o colo dele, que eu tanto adorava era diferente de qualquer outro. Mancava ligeiramente e para mim era um balanço que me sabia tão bem! E quando soube da mina que rebentou e quase o fazia não regressar ainda passei a gostar mais do colo dele. Disse-me que tinha ainda estilhaços de quando a mina rebentou. 

Tinha um álbum com as fotos num armário no corredor, fechado à chave, e volta e meia eu ia lá ver mesmo sem ele saber. Era pequenina, quando o vi pela primeira vez, era um álbum azul, cheio de fotos, todas a preto e branco, fotos com vários rapazes, na maior parte das vezes sorridentes, fotos do meu pai, umas a sorrir, outras sério, outras com armas, ou a fazer palhaçadas. Fotos de paisagens. Fotos de acidentes. Apesar de ele dizer que era ele, um rapaz de 21 anos sem barba. Eu não reconhecia pois para mim o meu pai sempre teve barba e não mexia em armas, nunca foi agressivo,  era bastante pacífico e se pudesse ajudar lá estava ele. Não fazia muito sentido para mim, com aquela idade.

A primeira vez que vi esse álbum, era mesmo muito pequena e deparei-me com uma foto em especial que nunca mais me esqueci e que me fez perceber o que é uma guerra e o que se faz e o que se vê por lá. Nunca perguntei ao meu pai se matou alguém, não foi preciso. É uma guerra, ou se morre ou se mata. É uma questão de sobrevivência. Nunca lhe perguntei, porque via nos olhos dele quanto ele sofreu por lá. Tal como nunca perguntei se algum amigo morreu lá. Claro que morreu, nem se pergunta! É uma guerra!

Levou-me a mim e à minha mãe a um almoço convívio de ex-combatentes. Eu era muito pequena, mas lembro-me de um amigo dele dizer que o meu pai era muito amigo dele e que era um maluco mas que ninguém ficava para trás com ele. Era magrinho mas tinha força. O meu pai, um rapaz magro, levava as mochilas dos camaradas quando eles não aguentavam mais, ou ajudava a carregar alguém a ombros. Se já era o meu herói tornou-se ainda mais.

Vai fazer 50 anos este mês que ele partiu para Moçambique, no Niassa, um navio sem condições que levou tantos mancebos para o Ultramar, sem saberem ao que iam. Eram miúdos! O meu pai tinha 21 anos apenas. Muitos tal como o meu pai, nem disseram às mães que iam combater no Ultramar, simplesmente saíram dos quartéis e foram para Lisboa seguir o seu destino, fosse ele qual fosse. Ainda me recordo da minha avó a falar-me da angústia de não saber dele. Só soube depois e passou 2 anos sem o ver. Nem imagino a dor e a angústia! 

Há uns anos atrás, pedi-lhe algumas fotos para digitalizar e lá me contou mais alguma coisa. Uma foto de um veiculo que parece um monte de sucata. – “Foi uma mina. Eu era para ter ido nesse”. Uma foto de outro veículo capotado. – “Esse foi do meu acidente também por causa de uma mina que rebentou. Encontraram-me, desmaiado, preso entre duas rochas. Não caí na ribanceira graças a isso.” Uma foto dele todo vestido de branco. – “Esta é no hospital de Lourenço Marques, agora Maputo. Cheguei aos 38 quilos, por causa da onda de choque da explosão.” 

Felizmente ele voltou pois senão eu não estaria aqui. E os meus tios também, um foi para Moçambique, tal como o meu pai pela mesma altura e o outro para Angola um pouco mais tarde. Foram rapazes, vieram homens, por força das circunstâncias. Por causa de uma guerra que para muitos nem era deles, de uma guerra sem razão. 

Simplesmente, eu bem tento, mas não consigo imaginar nem de perto como eles se sentiram quando foram destacados, quando iam a caminho do seu destino, quando chegaram lá, quando tiveram o primeiro ataque, viram a primeira morte ou tiveram de matar.  As picadas que o meu pai fazia tantas vezes, nem imagino o medo que sentiam. Emboscadas, minas, nem consigo ter uma ideia. Nunca percebi muito bem o porquê de terem de passar por tudo isso. 

Tantos como o meu pai, já não vieram os mesmos que foram, vieram com muitas cicatrizes, se não físicas, psicológicas. Com tantos traumas, o agora tão falado Síndrome pós traumático. O SPT nos ex-combatentes do Ultramar sempre foi desvalorizado e que tanto prejudicou famílias inteiras incluindo a minha. Era coisa nova. O meu pai nunca recuperou da guerra, ficaram marcas profundas que ele não conseguiu sarar. Toda a família sofreu por isso. Eu que já o conheci no pós guerra não sei como ele era antes mas tal como os outros veio com certeza muito diferente. Quando fui ao almoço convívio em pequena, (pouco me lembro pois era muito pequena mesmo) mas recordo-me dele a conversar com os amigos e camaradas. No final do dia, quando voltávamos para casa, isso a minha mãe contou-me recentemente, que ele chorou o caminho todo de volta. Se vi o meu pai chorar uma vez foi muito. O que terá passado na cabeça dele? Alguma emoção que estava contida há anos deve ter voltado quando viu os amigos e relembrou as histórias daqueles 2 anos. Esse reencontro deixou-o mesmo muito abalado. Não são só eles que sofrem mas toda a família, levando várias vezes à auto-destruição, como aconteceu infelizmente com o meu pai. 

Resolvi escrever isto não só em memória dele mas porque após o falecimento dele entrei em contacto com alguns amigos e camaradas do batalhão dele e percebi o quanto eles se sentem esquecidos e incompreendidos. 

O meu pai quase sempre estava no mato mas quando tinha licenças ia à cidade e chegou a ouvir comentários de portugueses que viviam lá. Lá estavam esses portugueses, sentados relaxadamente em esplanadas a comer camarão e a beber cerveja e quando viam mais soldados a chegar comentavam: “ - Lá vem mais carne para canhão!”

Os desertores foram considerados os heróis e eles que combateram lá foram considerados assassinos e criminosos. Não digo que em guerras não hajam atrocidades de ambos os lados mas a maioria que lá andou só queria sobreviver e voltar para casa. Era matar ou morrer. E só quem passa por isso é que pode opinar. E tenho orgulho porque por mais difícil que tenha sido, com o meu pai aprendi valores que tento passar aos meus filhos. Aprendi a ser corajosa, a ter confiança em mim e nos que me estão próximos, a ser leal, a ter espírito de ajuda. 

A maioria não vai ler nem metade mas se houver alguém que tenha lido já fico um bocadinho contente. Fica a minha lembrança e o meu testemunho, que vale o que vale, em memória do meu pai, Rogério, do meu tio e padrinho Rui, e em homenagem ao meu tio Vitor, 3 ex-combatentes com quem lidei toda a minha vida e que sacrificaram não só a sua juventude mas o resto da sua vida devido a uma guerra estúpida que nunca devia ter acontecido. Em homenagem a todos os ex-combatentes, lembrando os do Batalhão de Caçadores 3843 de que o meu pai fazia parte, nomeadamente da Ccaç3355, e em memória de todos os ex-combatentes que faleceram. 

Apenas tento que as histórias deles não sejam esquecidas. Tento que eles não sejam esquecidos! Mas há ainda tanto por dizer.
(Diana Pacheco)

segunda-feira, 5 de abril de 2021

O BATUQUE

Com esta temperatura a que estamos sujeitos, veio-me à memória as noites quentes em África, no meio do mato. Como não havia muito por onde escolher (não havia mesmo nada por onde escolher) íamos por vezes ao aldeamento próximo assistir a uma batucada.

O BATUQUE


Há um preceito que todo o indígena cumpre: o preito a Terpsicore.

"Batuque" - dança café - que lhe conste, a léguas de distância que ele tenha lugar, longe que fareje. 

Ele aí vai, traje de gala: plumas de avestruz, de aigreta, de outras aves, cobrindo-lhe a cabeça; uma pele de animal selvagem envolvendo-lhe o tronco; anilhas pelos braços; amuletos ao peito, rabos de boi pendendo-lhe dos braços e das pernas e das pernas ... 

0 batuque tem lugar a propósito de tudo: casamento, nascimento, morte; um propósito de um facto tornado notável; a qualquer pretexto ou até, o que é mais simples, um pretexto algum. 

Mas o fim do batuque não é como pode parecer dançar: é beber! 

E, por isso a dança vai terminar "naturalmente, por falta de gente que ébria vai ficando a dormir, tal e qual que contraste! - o tempo áureo de requintada elegância dos imperadores romanos nas chamadas bacanais de Roma. 

E, finalmente, bem definida bem definida fica a atração que todo o indígena tem para a dança - 0 batuque - afirmando o que os europeus em contato com eles e observadores, sintetizam nesta frase: "e preciso que um homem ou uma mulher, de qualquer idade que seja, disponível completamente impossibilitado de se mover, para se resistir ao apelo do batuque "! Ainda que em alguns casos a música seja harmónica na maioria das vezes porém, não o é. 

Pelo contrário, simples ruídos, constantemente repetidos horas e dias, marcam o compasso da dança . 

A letra é quase sempre sem significado, ou pouco a propósito, misturando-se como frases guerreiras - se é batuque de guerra - com frases obscenas. 

Texto: Memórias d'África e d'Oriente

O NIASSA

 O NIASSA

O navio transportava jovens militares como gado, empilhados, rumo a um continente desconhecido e a uma guerra que os marcaria para sempre. Salazar ainda governa - por pouco - mas vê surgirem as primeiras contestações à guerra que, em África, consumia toda uma geração.

Alheia a tudo isto, no dia 21 de Abril de 1971, uma multidão de mancebos acorre ao cais de Alcântara e embarca no paquete Niassa rumo ao desconhecido.

As condições que encontraram a bordo para uma viagem tão longa não podiam ser mais elucidativas do que os esperava.

Durante três semanas – que não contavam para a “contabilidade” da tropa - os jovens entretinham-se com o que havia, sobretudo jogavam à batota, por vezes até de madrugada, com as cartas a circular de mão em mão.

Era uma atividade formalmente não aceite, mas tolerada pelos superiores, embora pudesse ser motivo de conflito por parte dos maus perdedores – e alguns perderam muito - e permitisse lucro fácil aos mais afortunados, que amealharam dinheiro e objetos: máquinas fotográficas, relógios…tudo servia para pagar dívidas e esquecer o local onde estavam e o que ali os trazia.



Nessa viagem, a par de tantos rapazes anónimos vindos de todo o País, seguia o cantor Edmundo Falé, que contribuiu para alguns momentos de alegria e descontração, ao oferecer aos seus camaradas de armas um “concerto” em pleno oceano.

Os dormitórios, por outro lado, apresentavam um panorama bem menos suscetível de merecer aplausos: consistiam numa estrutura metálica que ocupava as entranhas do navio e se estendia por vários andares, separados por um pavimento em tábuas de madeira, sem forro ou outra qualquer proteção isolante.

A algazarra era, por vezes, infernal e, nas compridas noites oceânicas, à falta de melhor local, os militares urinavam ali mesmo, “brindando” os seus companheiros dos patamares inferiores com uma desagradável chuva noturna que chegava a percorrer os três pisos improvisados onde dormiam mais de dois mil homens.

A sorte e o destino geográfico que lhes estava atribuído pelas forças armadas ditavam quem ficava em cima e quem devia resignar-se a ficar por debaixo.

Obedecidas as rotinas obrigatórias, os dias eram passados preferencialmente no convés, onde também se tomavam as refeições. Era espaço mais arejado, mas também sujeito ao sol inclemente e à chuva, que marcou alguns dias da viagem. Quando assim era, não havia lugar para estar ou comer e não foram raras as ocasiões em que o almoço era tomado na casa de banho, entre a vontade de matar a fome e a náusea dos cheiros envolventes.

“O gado hoje viaja em melhores condições que as que nós tivemos para ir servir a pátria no Ultramar, a bordo do Niassa”, conta quem assim viajou entre Lisboa e Lourenço Marques, rumo a uma guerra que mal se compreendia, deixando mãe sozinha, namorada e emprego fixo na metrópole.

Tudo em espera por dois anos, na melhor das hipóteses.

E esses eram os venturosos, porque o pior cenário era o regresso do soldadinho numa caixa de pinho, como cantou Zeca Afonso.

A multidão sem nome continuou a embarcar para a guerra colonial, mesmo depois da morte de Salazar, mesmo depois da “primavera marcelista”, até que, a 25 de abril de 1974, um grupo de militares fez cair o regime e, ainda que de forma atabalhoada, acabou com a guerra colonial, 13 anos depois do seu início. Quanto ao Niassa, serviria até 1978, mas seria alvo de um atentado bombista, quando se preparava para levar mais um contingente de tropas, em 1970.

Mas isso é outra história…

(testo copiado do Blog osaldahistoria.blogs.sapo.pt)

O LEOPARDO

O nosso camarada António Fidalgo, publicou um acontecimento que eu achei interessante.

Então é assim:

"A nossa vida militar por terras de África tinha coisas peculiares num determinado dia apareceu um miúdo do aldeamento próximo do quartel da CHIRINGA todo excitado todo esbaforido que tinham preso numa armadilha um leopardo próximo das machambas. 

O nosso Capitão RAIMUNDO apercebeu-se do problema de imediato pegou numa caçadeira que tinha adquirido para nós ir-mos á caça e correu para o local eis que quando lá chegou o dito leopardo tinha quebrado a armadilha e deixou um pequeno rasto de sangue que se dirigiam no sentido de uma moita onde o mesmo se abrigou. 


Vejam a tempera do nosso Capitão RAIMUNDO seguiu o descrito rasto e meteu-se dentro do covil do leopardo, o bicho sente-se apertado reage de garras abertas o espaço naquele sítio era diminuto, o nosso Capitão esquiva-se e com os dedos no gatilho deu um tiro  mas a arma tinha uma pequena avaria no primeiro tiro  disparava sempre dois tiros mas os que andavam com a dita arma não lhe contaram com receio dele pois corria-mos o risco de ficar sem ela, pois a mesma teria que ir para TETE e nós ficava-mos sem o brinquedo e sempre  tirávamos alguma vantagem se o atirador fosse mais fraco tinha menos possibilidade de falhar. Coisas de  malta nova. 

O nosso Capitão abateu o leopardo apanhou um pouco de susto e ficou com uma bota meio estragada pela garra do animal. Vem ter comigo todo feliz por ter uma pele de leopardo e eu com a grande amizade que tinha por ele disse-lhe ó meu CAPITÂO o SENHOR não está no Alentejo á caça, tinha pedido aos miúdos para virem aqui ao quartel levavam gasolina, pegava fogo á moita, o bicho saía e abatia-o. Resposta imediata quem não arrisca não petisca para quê dar cabo da gasolina. 

Por ter trabalhado nos telefones falava muita vez com ele e claro nos ditos telefonemas, abordava-mos os pequenos e grandes episódios das nossas  vidas, tenho imensa saudade destes trechos irei sempre guardar dentro de mim o respeito e a admiração que nutria por ELE."

Obrigada pela partilha

quinta-feira, 11 de junho de 2020

O CHARCO DOS PORCOS

O charco dos porcos.
Estávamos em Novembro de 1969.
Em África a época das chuvas já se tinha iniciado há algumas semanas e, com ela, o calor manifestava-se de forma abrasadora.
Em Tete, por essa altura, a temperatura média ultra passava os 40°, tornando o ar seco, quase irrespirável.
Ao meu pelotão é atribuída uma missão de três dias, que tinha como finalidade detectar uma base inimiga localizada na nossa zona de acção e, que segundo informações obtidas de um prisioneiro, se situaria entre as aldeias da Majanja e do Ponde, a Sul de Vuende.
Com o Alferes cmdt. do pelotão de férias na Metrópole, assumi o comando do respectivo pelotão, já que era o mais graduado.
Depois dos preparativos que antecediam uma saída para o mato, o grupo iniciou o deslocamento em viaturas para a Majanja, onde nos apeámos para então iniciarmos a progressão a pé, em direcção ao ponto indicado pelo prisioneiro. Andámos uns quilómetros e com o calor que já se fazia sentir, procuramos um lugar apropriado para descansarmos e também para comermos a ração de combate e aguardar que a temperatura amenizar um pouco.
As árvores, de copa pequena pouca sombra davam, tornando difícil a escolha, depois os mosquitos não nos deixavam em paz, o que nos irritava!
Reiniciada a progressão em direcção ao objectivo, eis que deparamos com um aldeamento e, a esperança de obtermos água. Os cantis, na sua maioria encontravam-se com pouca água. Interpelados os nativos de onde retiravam a água, estes apontaram para um local que mais não era que um charco, onde vários porcos se revolviam na lama. Desilusão total!
Alguns não resistiram à tentação e beberam-na, não esperando uma hora para que a pastilha (quinino) actuasse.

O dia aproximava-se do fim e a escuridão caía rapidamente. Havia que escolher um lugar seguro para se passar a noite. Com o tempo quente não era necessário a montagem de qualquer tenda. O maior perigo poderia advir da presença de répteis entre a folhagem e da mordedura de algum.
Novo dia!
A alvorada no mato dava-se muito cedo. O acender de um cigarro era instintivo! Era um momento só nosso! Só depois deste ritual é que vinha o leite achocolatado e o pão seco já do dia anterior.
A caminhada reiniciava-se.
O trilho agora levava-nos em direcção a uns montes que eram a fronteira da nossa zona de acção. Ultrapassá-los significava a possibilidade de encontrarmos tropas africanas e de confundi-los com o In.
A debilidade física, sintomas de má disposição, cólicas itenstinais e vómitos que afectavam vários militares, traziam problemas ao grupo.
Interrogado o prisioneiro, este já não dizia coisa com coisa, o que nos levou a bater apenas a base dos montes, mas sem resultado algum. O enfermeiro que nos acompanhava ia distribuindo pastilhas. Na bolsa de enfermagem pouco mais haveria que pudesse ajudar. Alguns dificilmente se aguentavam de pé, não dava para acreditar!
Era necessário encetar o regresso! Consultada a carta, é escolhida uma linha de água que nos levaria à Majanja.
A ira contra o prisioneiro aumentava, acabando este por sofrer, à socapa, com a retaliação de alguns. Com muito custo chegámos à aldeia da Majanja, onde pernoitámos numa cantina ali existente. Seria penoso submeter o grupo ao sacrifício de uma marcha de oito quilómetros até ao quartel. Assim recrutamos um estafeta (com bicicleta) para levar uma mensagem ao nosso Capitão a expor a delicada situação e a solicitar o nosso regresso.
O ruído dos unimogues começou a ouvir-se ao longe.
Era o alívio que se aproximava!
Joaquim Santos, Fur.Mil. Atir. C.Caç.2359

quarta-feira, 10 de junho de 2020

RELATÓRIO DE ACÇÃO 02/71

RELATÓRIO DE ACÇÃO 02/71 - 121408JUN71
A noite até estava serena e luminosa. 
Quem tivesse caído ali de paraquedas não poderia imaginar o quanto todo aquele ambiente tinha de sinistro. Ao longe ouviam-se as hienas que rondavam o aquartelamento.
A conversa não estava muito animada daquele dia. O tema principal era a hipótese de um qualquer de nós ficar ferido em combate, quer por tiro ou por mina.
Recordo o Sousa (furriel Sapador, António Antero Encarnação Sousa), dizer que tinha alguma dificuldade em aceitar o facto de alguma vez poder sofrer um acidente do género. Até porque o Sousa tinha de se deslocar logo pela manhã para a zona do Matundo ali mesmo junto ao rio Zambeze para escoltar a coluna de reabastecimento que vinha de Chicoa carregada de mantimentos e outras coisas, para Chipera. 
Até aquele dia ainda não tínhamos tido acidentes de maior apesar de nos terem dito que a Frelimo estava a intensificar as suas acções no distrito de Tete. As notícias não eram animadoras e estávamos preparados ao fim de 3 meses a enfrentar as agruras da guerra, fosse ela o que fosse. Todos nós durante a recruta e depois na especialidade podemos testemunhar o quanto era difícil por vezes enfrentar alguns dos exercícios que eramos obrigados a fazer.
A conversa já ia longa e o ambiente ameaçava ficar pesado e desistimos da conversa e foi cada um para sua cama.
O dia amanheceu como tantos outros, até àquele dia. Ninguém poderia imaginar o quanto este dia iria ficar marcado para sempre na memória de algumas pessoas, incluindo eu.
Na messe vários camaradas tomavam o pequeno almoço, como habitualmente e depois de dois dedos de conversa, todos se deslocavam aos seus postos de trabalho.
A conversa da noite anterior ainda martelava na minha cabeça.
O dia estava calmo sem outras previsões que não fosse o calor excessivo que se fazia sempre sentir. Por entre Mensagens, Sitreps (relatórios de situação) que eu escrevia e depois passava na máquina de Stencil, rodando a manivela tantas vezes quantas as cópias que eram necessárias.
Naquele dia não havia prisioneiros para interrogar.
A manhã avançava e o calor apertava cada vez mais, a temperatura subia a olhos vistos. O distrito de Tete é das zonas mais quentes de Moçambique, sendo que o mês mais quente do ano é Novembro com uma temperatura média de 30.0 °C. O clima prevalecente em Tete é conhecido como um clima de estepe local. Em Tete o ano tem pouca pluviosidade.
Pelas 12,14 horas do dia 08 de Junho foi dada ordem de saída de uma coluna de socorro, formada por Unimog 404 e uma ambulância, para socorro da coluna auto transportada que vinha de Chicoa.
Vários voluntários se juntaram logo para irem em socorro dos camaradas feridos. Eu saltei para dentro da viatura ambulância e lá fomos picada fora até ao local do incidente.
Pouco antes de chegarmos ao local do incidente, pudemos ver o helicóptero, levantar voo com o ferido mais grave. A causa tinha sido o rebentamento de uma mina anti-carro, que rebentou do lado onde o Furriel Miliciano Rec. Inf. Filipe Jorge Queiróz Mendes, vinha fazendo o reconhecimento à vista do terreno. O acidente deu-se logo depois de uma curva apertada onde a visibilidade não era a melhor, mesmo para quem viesse em cima de uma viatura. O Furriel Filipe Mendes, aquando do rebentamento foi projectado ao ar e foi cair em cima de uma mina anti-pessoal, provocando-lhe graves ferimentos no corpo.
Simultaneamente alguns soldados que vinham em cima do Unimog também foram projectados e dois deles ao caírem no chão accionaram duas minas anti-pessoal, ficando estes em estado considerado grave e outros com ferimentos ligeiros. O condutor do Unimog e um outro elemento que seguia na frente da viatura sofreram ferimentos graves porque o rebentamento se deu na roda da frente do lado direito da viatura.

Quando chegámos, saltámos da viatura ambulância, para a picada e tomámos consciência que a situação era crítica. Na zona alguns soldados sem terem a noção do perigo que os rodeava, tentavam desesperadamente apanhar alguns animais que entretanto tinha fugido e andavam por ali.
Ao meu lado, se a memória não me atraiçoa, estava o Alferes Médico Candeias que se posicionou do lado esquerdo da picada, ficando eu do lado direito, no meio da picada ficou o 1º Cabo Rec. Inf. Arnaldo Ribeiro de Castro.
Logo que demos os primeiros passos e a poucos metros da ambulância o 1º Cabo Castro accionou uma mina “anti-pessoal” reforçada, que me projectou pelo mato dentro numa distância de mais de 10 metros. Com os ouvidos a zunir e meio “apardalado”, tentei apanhar a minha G3 que tinha caído pelo caminho. Quando levantei os olhos em direcção do local onde tinha estado antes do rebentamento, pude ver um coluna de fumo e pó que envolvia o local.

Dou um “berro” ao meu amigo Sardinha, que estava a uns vinte metros afastado de mim e digo: “Ó SARDINHA, O QUE É QUE EU FAÇO AGORA PÁ?”. Claro que o Sardinha não podia fazer nada pois estava longe, mas mesmo assim ainda me disse: “OLHA PÁ, PÕE OS PÉS NO MESMO SÍTIO QUE EU”. Esbocei uma tentativa de entendimento da situação e aproximei-me lentamente com mil cuidados, sempre a olhar para o chão, até junto do 1º Cabo Castro.
O que vi naquele instante, ainda hoje me ensombra os pensamentos mais remotos. O 1º Cabo Castro estava estendido no chão com uma perna decepada pela mina “anti-pessoal”, coberta por terra e algumas ervas. O odor que se fazia sentir de carne queimada era intenso. Neste entretanto alguns elementos da Companhia de Caçadores 2758, já tinha tomado posições de segurança. A sua experiência era superior à nossa, eles já tinham estado em Mueda, no conhecido “Planalto dos Macondes”, onde foram flagelados imensas vezes.
Enquanto o médico tentava estancar o ferimento ao 1º Cabo Castro para que pudesse ir para a ambulância, onde seria posteriormente evacuado para o hospital de Tete, eu fiz a minha progressão de reconhecimento da situação, que aos poucos se ia tornando mais calma.
Consegui chegar junto do Unimog do Pelotão de Reconhecimento, onde estavam as “PICAS”. Naquela altura ainda não tínhamos os famosos detectores de minas electromagnéticos, que vieram trazer uma enorme evolução na segurança dos nossos soldados que tinham de se deslocar nas picadas, fazendo a sua segurança e protecção.
Foi por esta altura que o Furriel Mil Sapador, António Antero Encarnação Sousa, salta para cima do Unimog e começa a chamar os seus homens, para que começassem a picar toda a zona envolvente. Até porque com toda a certeza ainda haviam minas “anti-pessoal” espalhadas pelas bordas da picada.
O Furriel Sousa, saltou então para o chão e de “pica” na mão começou a picar o espaço em redor dele. Eu estava quase encostado a ele, pois tínhamos estado a falar. Aos poucos os soldados foram-se chegando e tomaram posições na picada de modo a garantirem alguma segurança. O Furriel Sousa de “pica” na mão estava na sua actividade, nas traseiras do Unimog.
O destino por vezes é cego e doloroso. O espaço que separava a ponta da “pica” das botas do Sousa era uma zona de minas, mas ninguém podia prever isso. 50 cm que separavam a vida da morte. O Sousa avança com o pé direito, com todo o cuidado e depois com o esquerdo. No momento em que o pé esquerdo se junta ao direito o Sousa acciona uma mina anti-pessoal que estava mesmo ali debaixo dos seus pés afastada poucos centímetros. Inevitavelmente que o accionamento da mina provocou o seu rebentamento. O Sousa accionou uma mina anti-pessoal simples com os dois pés juntos, o que lhes causou ferimentos nas duas pernas. Mais tarde veio a verificar-se que tinha ficado sem uma perna e com ferimentos na outra. Eu estava a menos de 1 metro do Sousa e não sofri (mais uma vez) nenhum arranhão.

Depois disto todos assumiram que era necessário “limpar” a zona para segurança do grupo. Foram detectadas e desactivadas ainda algumas minas anti-pessoal na zona. Com alguns feridos pelo rebentamento da primeira mina, a ambulância estava pronta para efectuar o regresso ao aquartelamento.
No dia seguinte na viagem de regresso, foram detectadas mais à frente a cerca de 250 metros do local do dia anterior, mais 1 mina anti-carro e duas anti-pessoal, que se presume terem sido colocadas durante a noite.
Já no quartel, era hora de limpar a memória dos acontecimentos do dia e para isso nada melhor que um bom duche de água fria. Foi o que fiz. Durante quase uma meia hora estive debaixo de água, revivendo todos os momentos porque tinha passado. As lágrimas corriam-me pelo corpo molhado misturando-se com a espuma do sabonete.
Não jantei nesse dia. A minha visão de guerra estava preenchida, daqui para a frente iria ser uma pessoa diferente, disso não restavam dúvidas. Um dia de cada vez.

VIAGEM DE COMBOIO DA BEIRA A MOATIZE

VIAGEM DE COMBOIO DA BEIRA A MOATIZE
A viagem de comboio que tivemos de fazer em Moçambique em Maio de 1971, pelas piores razões, (a guerra colonial) entre a Beira e Moatize, a terra das minas de carvão que se extrai quase puro da natureza, envolta em mistérios e tensões. Após a chegada do navio Niassa à Beira, o comboio foi o transporte para um local no fim do mundo que desconhecíamos, nas imediações da Barragem de Cabora Bassa na outra margem do rio Zambeze. 
Pior do que o cansaço e das indigestões das rações de combate com salsichas intragáveis made in Africa do Sul, era a ideia que transportávamos na cabeça, de como cada um se iria sair da lotaria da vida ou da morte nos 2 anos a ultrapassar. 

Embarcámos na Beira de manhã, percorremos toda a viajem num comboio pouca terra com assentos de madeira todo desengonçado a que só os nossos verdes anos conseguiam resistir. Mas na própria desgraça, há sempre momentos de alguma descontracção. Ao raiar da manhã, começamos então a ver a paisagem física e humana do imenso interior de África. 
Quando chegávamos a um apeadeiro (eram apeadeiros, não Estações como cá as conhecemos), vinham os meninos descalços e famintos a oferecer bananas e alguma água que retiravam dos poços, a troco da oferta de algumas latas de sardinhas de conserva e salsichas das rações de combate.
Quando partíamos perguntávamos: agora a próxima paragem é em tal sitio, ainda fica muito longe? É já aí à frente. 

O é já aí, eram mais 4 ou 5 horas de viagem. As distâncias de África, funcionam noutras escalas e quem estiver em Lisboa, por exemplo, o Porto é já aí. Com o avançar do dia chegou “ao pouca terra”, o sol impiedoso do distrito de Tete, onde se atingem temperaturas de mais de 40 graus. Agora era o calor, as moscas e os insectos a perturbar aquela viagem rumo ao desconhecido. E as visões mirabolantes estavam ainda para acontecer. À medida que avançávamos para a zona operacional de guerra, começamos a ver alguns camaradas nossos já velhinhos na guerra, meios cacimbados pelo isolamento de cabelos e barba mais parecido com a dos gringos do Oeste a patrulhar a linha a pé em grupos de apenas 2 ou 3 elementos por troço. Chegávamos à zona das terríveis minas comandadas à distância para que explodissem a meio das carruagens e fugir à protecção das máquinas rebenta minas colocadas à frente. Primeiro uma depois outra e depois dezenas de carruagens tombadas junto à linha com destroços ferrugentos deixados ao abandono depois do rebentamento das minas que nos alertavam que aquilo nos 2 anos que se iam seguir era mesmo a sério.
Ao anoitecer, com 24 horas de viagem e a cheirar àquelas intragáveis latas de salsichas da ração de combate, alcançávamos finalmente Moatize, terra pequena mas onde havia já uns vestígios de civilização tivemos a oportunidade de comer um bom bife com batatas fritas, no meu caso numa pequena cantina de uns senhores da Beira Baixa que há alguns anos ali se tinham instalado à semelhança de muitos outros cantineiros, chamavam-se assim e até tiverem um papel interessante na própria guerra, pois alguns davam-se bem com os guerrilheiros os quais iam tomar umas “canhas” frescas às suas cantinas espalhadas pelos locais mais recônditos do território. Esses cantineiros procuravam riqueza fácil a vender cerveja fresca e outras bebidas que "punham a cabeça grossa para esquecer tristeza" bastando para isso investir em 2 frigoríficos a petróleo. 
A tropa velhinha que estava por ali com os camuflados já a dar para o debotado, perguntava em jeito de gozo e de humor negro aos checas acabadinhos de chegar da Metrópole com as fardas aprumadinhas e ignorantes em matéria de guerra. Para onde vai a tua companhia pá? Vai para um local que nos disseram na Beira que se chama Chipera !!!
Ah, Chipera, do outro lado do rio. Olha estão fud..... , poucos saem de lá vivos.
Em cima do cansaço e da alucinação causada pelas carruagens desfeitas, do cheiro nauseabundo das salsichas, tínhamos outro inimigo: o boato. Não era por acaso que depois começámos a ver a psico montada pela tropa com cartazes em Moatize e depois na Picada até Chipera a dizer aos recém-chegados: cuidado não dês ouvidos ao boato, o boato fere mais que uma lâmina.
O que se passou nos 2 anos a seguir foi árduo e triste...
Um agradecimento especial ao meu amigo José Abílio Mourato.

terça-feira, 21 de abril de 2020

21-MAIO-2020

21-4-2020 Faz hoje 49 anos que no velho NIASSA zarpávamos de Alcântara-Mar rumo a Moçambique.
Sem qualquer nostalgia, deixa-me recordar o essencial. Após a instrução da especialidade no RI 15 (Tomar) e da instrução de aperfeiçoamento operacional em Santa Margarida, embarcamos no caminho de ferro até Alcântara Mar.

Após as formalidades inerentes ao embarque, lá zarpámos para inicio da viagem.
No tombadilho do navio com o Capitão Melo, Capitão Raimundo e com o Nicolau, conversávamos sobre o destino do nosso Ultramar.
Bons tempos em que o Capitão Jeremias nos animava com as suas áreas ao piano e em que o Nicolau prontamente aprendeu a jogar o bridge (só com observação).
Parámos em Luanda e sinto saudades da banda militar a tocar “Angola é nossa” e eu vos ordenei a posição de sentido.
Eu era o Comandante Militar a bordo e o Comandante de Bandeira era o Capitão Tenente Fiandeiro, o que permitiu um relacionamento extraordinário.
Foi assim que na passagem do Cabo simulámos o desembarque, tendo para o efeito sido lançada a escada de portaló.
Depois a orquestra tocava o “barrete sobre a orelha” e houve um animado beberete. Chegámos a Lourenço Marques (e não a Maputo, que é o nome de um rio) a 13 de Maio. Comemorava-se o 13 de Maio na Namacha e, por isso, a cidade estava deserta.
Atracámos atrás do ANGOCHE com um rombo de uma explosão.
Recebemos o Movimento Nacional Feminino que nos entregou aerogramas e bolas de futebol. Visitámos essa maravilhosa “Pérola do índico”, a capital de Moçambique. No trajecto de Lourenço Marques para a Beira fomos brifados pelos Chefes de Repartição do Quartel General, a quem pedi para adocicarem a situação da guerra. Desembarcámos na Beira onde fomos integrados por 3 Grupos de Mesclação de tropas de Moçambique que completaram as companhias operacionais.
Aquando das minhas palavras de recepção chamei o Capitão Jeremias, dando-lhe nota de quanto seria profícua a sua integração.

Seguimos, então, de Caminho de Ferro até Moatize, donde seguimos em coluna alta para os nossos destinos no dia seguinte. Aí pernoitamos (na vinda para a Zambézia já possuía uma ponte cujo projecto foi elaborado pelo eminente Engenheiro Edgar Cardoso).
No dia seguinte lá fomos a caminho do destino. Na Estima ficou a Companhia 3355 que comboiava as colunas cimenteiras de Moatize para o Songo, chegando a atingir 3 km de extensão.
Ainda se encontrava na Estima o COFI (Comando Operacional das Forças de Intervenção), mais tarde substituído pelo CODCB (Comando Operacional da Defesa de Cahora Bassa).
Quando chegámos à Chicoa, o “Almirante” Coutinho foi  primeiro embarcar um hipopótamo que boiava no rio Zambeze e só depois nos transbordou.

A Companhia de Caçadores 3356 seguiu para Norte indo basear-se na Cantina de Oliveira, onde teve uma missão difícil, pernoitando em abrigos térreos.

Chegámos já de noite, no dia 16 de maio, à Chipera.
A Companhia de Caçadores 3357, por força do sucedido com o hipopótamo, só seguiu ao seu destino no dia seguinte. Aí sofremos as primeiras acções inimigas e sofremos as primeiras baixas quando as colunas que se deslocavam à Chicoa accionavam as primeiras minas.

Em Dezembro de 1971, o Movimento Nacional Feminino ofertou-nos um disco com fados e alusões da Amália Rodrigues e uma mensagem do Eusébio (ambos jazem no Panteão Nacional).
Na rotação para a Zambézia, em Setembro de 1972, puderam então visitar o Songo com um píparo lanche de despedida, visitando a barragem quase na sua fase última de construção.
 
Quando lá chegamos, só existia a ensecadeira e o desvio do rio Zambeze. Das forças que integraram a guerra do Ultramar, de Angola, Guiné e Moçambique, se podem orgulhar de ter cumprido na sua globalidade a missão confiada. Lá está a barragem, lá ficou o aldeamento da Chipera com substancial apresentação de populações operadas no nosso tempo.

Deixámos uma Zambézia totalmente pacífica, depois de em tempos na década de 60 se ter operado várias acções de guerrilha. Que todos nós com fé, esperança e coragem e a protecção do nosso Capelão Padre Augusto, consigamos ultrapassar este momento difícil da pandemia que enfrentamos. Aquele abraço,  Figueiredo.

21 DE ABRIL DE 1971

21 de Abril de 1971
Neste dia muitos de nós deixávamos para trás a família e os amigos.
Foi neste dia que o Batalhão de Caçadores 3843, embarcou rumo ao Ultramar a terras de Moçambique, no navio português "NIASSA".
Foram muitas as fotografias tiradas na altura do embarque e muitas foram também as saudades que ficaram.
As imagens jamais serão apagadas da memória de todos aqueles que tiveram viveram aquelas horas de despedida. Uma despedida dos pais, dos filhos, da namorada, de todos os amigos que iam ficar para trás.

Muitas lágrimas, muita angústia naqueles que partiam e certamente uma enorme ansiedade no coração dos que ficavam.
Foram dias muito difíceis para toda a comunidade e durante quase um mês de viagem por mares nunca antes navegados, por nós, lá chegámos a Moçambique, para iniciar uma nova etapa nas nossas vidas.
De todos os bravos soldados que tombaram na guerra o estado português, fez sempre questão de não os repatriar, para que não se ficasse a saber que os filhos de Portugal também tombavam em África.
Neste dia de 21 de Abril de 2020, 49 anos foram passados e hoje celebramos mais uma efeméride.
Um abraço amigo para todos.

sábado, 21 de dezembro de 2019

NATAL DE 1971


Ao visualizar (conforme a minha equidade visual) o Facebook alusivo ao Natal de 1971, fez me recordar dias inesquecíveis passados no comando do nosso batalhão. Funciona para mim como um bálsamo reconfortante. Em Dezembro de 1971 verifiquei o valor dos sentimentos humanos.
Tinha-me deslocado em serviço ao comando operacional da Cabora Bassa. Ali recebi dada coluna sementeira escoltada pela companhia da Estima, duas caixas de bacalhau (lombada de sete centímetros) que o Pai do Alferes Teixeira (havia grande patriotismo) enviou para a ceia de Natal.
Nessa mesma coluna regressavam do hospital de Tete todos os militares que ali se encontravam com baixa e queriam passar o Natal juntos aos seus camaradas. Com a altitude da Estima o avião que nos transportou para Chipera não poderia descolar com tamanho peso. O piloto do Airlander, compreendendo a situação, avaliou meticulosamente o peso e consegui levantar voo com todos os apitos sonoros a contrariar. Com estes atrasos todos, aterrarias na Chipera já com noite escura, mas a experiência do então capitão Rodrigues, que tinha sempre preparadas as latas de cerveja com mechas e gasóleo, fez com que a aterragem parecesse que estávamos no Figo Maduro.
 

No dia seguinte, vinte e quatro, montamos, na parada principal, mesas em U para todos participarem na ceia de Natal. 

Das autoridades administrativas (administrador de posto e seu adjunto) todos se encontravam ausentes, pelo que, à minha direita, se sentou o interprete (Chico) que “carregado” de “Pombi” mal provou o bacalhau. Estava só, já que o então major Vicente se encontrava de baixa por ferimentos em combate. A segurança teria de existir e foi destacada uma secção reforçada para os morros adjacentes ao aquartelamento, já que em 24 de Setembro do mesmo ano havíamos sido atacados com fogo de morteiros, canhões sem recuo e metralhadoras pesadas sem que houvesse qualquer ferimento. Recordo que o acto sanitário para a secção destacada (Furriel Espirito Santo) foi voluntariamente exercido á pessoa do Furriel Karin (na altura autoridade máxima sanitária). 
Além das batatas com bacalhau e couves (das rotas adjacentes ao Ribeiro de Mefidisi (habilmente cultivadas pelas populações nativas). 
As “iguarias” foram preparadas pelos nossos cozinheiros (que foram estagiários de instrução de aperfeiçoamento do Hotel Alvor).
Já agora, recordo também o Natal de 1972, passado em Mocuba, na Zambézia, nessa altura com um serviço espectacular de bolos e assados, trazidos pelas senhoras daquela cidade. Não esqueço que os administradores de Mocuba Sisal sendo cidadãos suíços também nos enviaram as suas iguarias.
Recordo que o Alferes Santos, que foi decepado de seu pé com uma mina, compareceu com o seu Pai a todos os nossos desembarques no aeroporto Figo Maduro.
Este calor humano, que se verificou, foi uma compensação para a ausência dos nossos entes-queridos.
Feliz Natal e um grande abraço.
Figueiredo
(ex comandante do BCaç 3843)

terça-feira, 15 de outubro de 2019

HOMENAGEM AOS COMBATENTES

HOMENAGEM AOS COMBATENTES
DA GUERRA DO ULTRAMAR

Combatentes portugueses
que obrigado fostes
combater em terras distantes
e cumpristes tal dever,
pois não fugiste por medo
porque nem isso poderias ter.
Cobarde também não foste
e deste o corpo às balas "cegas".
Pátria ingrata para ti
que te abandonou
e se esqueceu
do teu sangue e do suor derramado
em nome de Portugal.
Muitos combatentes ajudaram-te a libertar do monstro que te consumiu
e a instalar novos protagonistas
em nome da democracia.
Afinal que foi feito por ti
cujas insónias continuam
na tua memória, ficando gravados
os tormentos que por lá passaste!
Sonhos nocturnos e desassossego
constante na revolta contra a ingratidão.
Os homens continuam impávidos e serenos como se nada tivesse havido.
Já nem se respeita a família ou amigos que deram as suas vidas, ou que ficaram com traumas e alguns mutilações!
Onde páram os princípios
que defendemos e que tanto têm
servido de "capacho e oportunismo"
nas mãos de gente insensível?!
Quando chegará a aurora
boreal a este nosso Portugal
dos bons acolhimentos,
cujos mantimentos nem são humildemente distribuídos
pela ganância e o egoísmo
de uma desumanidade materialista.
Viva os homens de boa vontade
que em nome da liberdade
esperam ser reconhecidos.
14-10-2019
Ludgero Faleiro
*CART 7258/73 - Chipera, Moçambique.

sábado, 25 de maio de 2019

27º ENCONTRO DO BCAÇ 3843

27º ENCONTRO DO BCAÇ 3843
BOLEIROS - FÁTIMA
25 DE MAIO DE 2019







 


 




 
 
 
 
 
 


 
 


 

 
 
 
 

 
 


Obrigado a todos os que estiveram presentes neste encontro de velhos amigos. Muitos foram os que apesar de estarem longe não quiseram faltar à chamada. 
Já estamos a trabalhar no sentido de organizarmos um Super Encontro em 2020, com todas as companhias do BCaç 3843.

Bem hajam pelo vosso esforço