quinta-feira, 11 de junho de 2020

O CHARCO DOS PORCOS

O charco dos porcos.
Estávamos em Novembro de 1969.
Em África a época das chuvas já se tinha iniciado há algumas semanas e, com ela, o calor manifestava-se de forma abrasadora.
Em Tete, por essa altura, a temperatura média ultra passava os 40°, tornando o ar seco, quase irrespirável.
Ao meu pelotão é atribuída uma missão de três dias, que tinha como finalidade detectar uma base inimiga localizada na nossa zona de acção e, que segundo informações obtidas de um prisioneiro, se situaria entre as aldeias da Majanja e do Ponde, a Sul de Vuende.
Com o Alferes cmdt. do pelotão de férias na Metrópole, assumi o comando do respectivo pelotão, já que era o mais graduado.
Depois dos preparativos que antecediam uma saída para o mato, o grupo iniciou o deslocamento em viaturas para a Majanja, onde nos apeámos para então iniciarmos a progressão a pé, em direcção ao ponto indicado pelo prisioneiro. Andámos uns quilómetros e com o calor que já se fazia sentir, procuramos um lugar apropriado para descansarmos e também para comermos a ração de combate e aguardar que a temperatura amenizar um pouco.
As árvores, de copa pequena pouca sombra davam, tornando difícil a escolha, depois os mosquitos não nos deixavam em paz, o que nos irritava!
Reiniciada a progressão em direcção ao objectivo, eis que deparamos com um aldeamento e, a esperança de obtermos água. Os cantis, na sua maioria encontravam-se com pouca água. Interpelados os nativos de onde retiravam a água, estes apontaram para um local que mais não era que um charco, onde vários porcos se revolviam na lama. Desilusão total!
Alguns não resistiram à tentação e beberam-na, não esperando uma hora para que a pastilha (quinino) actuasse.

O dia aproximava-se do fim e a escuridão caía rapidamente. Havia que escolher um lugar seguro para se passar a noite. Com o tempo quente não era necessário a montagem de qualquer tenda. O maior perigo poderia advir da presença de répteis entre a folhagem e da mordedura de algum.
Novo dia!
A alvorada no mato dava-se muito cedo. O acender de um cigarro era instintivo! Era um momento só nosso! Só depois deste ritual é que vinha o leite achocolatado e o pão seco já do dia anterior.
A caminhada reiniciava-se.
O trilho agora levava-nos em direcção a uns montes que eram a fronteira da nossa zona de acção. Ultrapassá-los significava a possibilidade de encontrarmos tropas africanas e de confundi-los com o In.
A debilidade física, sintomas de má disposição, cólicas itenstinais e vómitos que afectavam vários militares, traziam problemas ao grupo.
Interrogado o prisioneiro, este já não dizia coisa com coisa, o que nos levou a bater apenas a base dos montes, mas sem resultado algum. O enfermeiro que nos acompanhava ia distribuindo pastilhas. Na bolsa de enfermagem pouco mais haveria que pudesse ajudar. Alguns dificilmente se aguentavam de pé, não dava para acreditar!
Era necessário encetar o regresso! Consultada a carta, é escolhida uma linha de água que nos levaria à Majanja.
A ira contra o prisioneiro aumentava, acabando este por sofrer, à socapa, com a retaliação de alguns. Com muito custo chegámos à aldeia da Majanja, onde pernoitámos numa cantina ali existente. Seria penoso submeter o grupo ao sacrifício de uma marcha de oito quilómetros até ao quartel. Assim recrutamos um estafeta (com bicicleta) para levar uma mensagem ao nosso Capitão a expor a delicada situação e a solicitar o nosso regresso.
O ruído dos unimogues começou a ouvir-se ao longe.
Era o alívio que se aproximava!
Joaquim Santos, Fur.Mil. Atir. C.Caç.2359

quarta-feira, 10 de junho de 2020

RELATÓRIO DE ACÇÃO 02/71

RELATÓRIO DE ACÇÃO 02/71 - 121408JUN71
A noite até estava serena e luminosa. 
Quem tivesse caído ali de paraquedas não poderia imaginar o quanto todo aquele ambiente tinha de sinistro. Ao longe ouviam-se as hienas que rondavam o aquartelamento.
A conversa não estava muito animada daquele dia. O tema principal era a hipótese de um qualquer de nós ficar ferido em combate, quer por tiro ou por mina.
Recordo o Sousa (furriel Sapador, António Antero Encarnação Sousa), dizer que tinha alguma dificuldade em aceitar o facto de alguma vez poder sofrer um acidente do género. Até porque o Sousa tinha de se deslocar logo pela manhã para a zona do Matundo ali mesmo junto ao rio Zambeze para escoltar a coluna de reabastecimento que vinha de Chicoa carregada de mantimentos e outras coisas, para Chipera. 
Até aquele dia ainda não tínhamos tido acidentes de maior apesar de nos terem dito que a Frelimo estava a intensificar as suas acções no distrito de Tete. As notícias não eram animadoras e estávamos preparados ao fim de 3 meses a enfrentar as agruras da guerra, fosse ela o que fosse. Todos nós durante a recruta e depois na especialidade podemos testemunhar o quanto era difícil por vezes enfrentar alguns dos exercícios que eramos obrigados a fazer.
A conversa já ia longa e o ambiente ameaçava ficar pesado e desistimos da conversa e foi cada um para sua cama.
O dia amanheceu como tantos outros, até àquele dia. Ninguém poderia imaginar o quanto este dia iria ficar marcado para sempre na memória de algumas pessoas, incluindo eu.
Na messe vários camaradas tomavam o pequeno almoço, como habitualmente e depois de dois dedos de conversa, todos se deslocavam aos seus postos de trabalho.
A conversa da noite anterior ainda martelava na minha cabeça.
O dia estava calmo sem outras previsões que não fosse o calor excessivo que se fazia sempre sentir. Por entre Mensagens, Sitreps (relatórios de situação) que eu escrevia e depois passava na máquina de Stencil, rodando a manivela tantas vezes quantas as cópias que eram necessárias.
Naquele dia não havia prisioneiros para interrogar.
A manhã avançava e o calor apertava cada vez mais, a temperatura subia a olhos vistos. O distrito de Tete é das zonas mais quentes de Moçambique, sendo que o mês mais quente do ano é Novembro com uma temperatura média de 30.0 °C. O clima prevalecente em Tete é conhecido como um clima de estepe local. Em Tete o ano tem pouca pluviosidade.
Pelas 12,14 horas do dia 08 de Junho foi dada ordem de saída de uma coluna de socorro, formada por Unimog 404 e uma ambulância, para socorro da coluna auto transportada que vinha de Chicoa.
Vários voluntários se juntaram logo para irem em socorro dos camaradas feridos. Eu saltei para dentro da viatura ambulância e lá fomos picada fora até ao local do incidente.
Pouco antes de chegarmos ao local do incidente, pudemos ver o helicóptero, levantar voo com o ferido mais grave. A causa tinha sido o rebentamento de uma mina anti-carro, que rebentou do lado onde o Furriel Miliciano Rec. Inf. Filipe Jorge Queiróz Mendes, vinha fazendo o reconhecimento à vista do terreno. O acidente deu-se logo depois de uma curva apertada onde a visibilidade não era a melhor, mesmo para quem viesse em cima de uma viatura. O Furriel Filipe Mendes, aquando do rebentamento foi projectado ao ar e foi cair em cima de uma mina anti-pessoal, provocando-lhe graves ferimentos no corpo.
Simultaneamente alguns soldados que vinham em cima do Unimog também foram projectados e dois deles ao caírem no chão accionaram duas minas anti-pessoal, ficando estes em estado considerado grave e outros com ferimentos ligeiros. O condutor do Unimog e um outro elemento que seguia na frente da viatura sofreram ferimentos graves porque o rebentamento se deu na roda da frente do lado direito da viatura.

Quando chegámos, saltámos da viatura ambulância, para a picada e tomámos consciência que a situação era crítica. Na zona alguns soldados sem terem a noção do perigo que os rodeava, tentavam desesperadamente apanhar alguns animais que entretanto tinha fugido e andavam por ali.
Ao meu lado, se a memória não me atraiçoa, estava o Alferes Médico Candeias que se posicionou do lado esquerdo da picada, ficando eu do lado direito, no meio da picada ficou o 1º Cabo Rec. Inf. Arnaldo Ribeiro de Castro.
Logo que demos os primeiros passos e a poucos metros da ambulância o 1º Cabo Castro accionou uma mina “anti-pessoal” reforçada, que me projectou pelo mato dentro numa distância de mais de 10 metros. Com os ouvidos a zunir e meio “apardalado”, tentei apanhar a minha G3 que tinha caído pelo caminho. Quando levantei os olhos em direcção do local onde tinha estado antes do rebentamento, pude ver um coluna de fumo e pó que envolvia o local.

Dou um “berro” ao meu amigo Sardinha, que estava a uns vinte metros afastado de mim e digo: “Ó SARDINHA, O QUE É QUE EU FAÇO AGORA PÁ?”. Claro que o Sardinha não podia fazer nada pois estava longe, mas mesmo assim ainda me disse: “OLHA PÁ, PÕE OS PÉS NO MESMO SÍTIO QUE EU”. Esbocei uma tentativa de entendimento da situação e aproximei-me lentamente com mil cuidados, sempre a olhar para o chão, até junto do 1º Cabo Castro.
O que vi naquele instante, ainda hoje me ensombra os pensamentos mais remotos. O 1º Cabo Castro estava estendido no chão com uma perna decepada pela mina “anti-pessoal”, coberta por terra e algumas ervas. O odor que se fazia sentir de carne queimada era intenso. Neste entretanto alguns elementos da Companhia de Caçadores 2758, já tinha tomado posições de segurança. A sua experiência era superior à nossa, eles já tinham estado em Mueda, no conhecido “Planalto dos Macondes”, onde foram flagelados imensas vezes.
Enquanto o médico tentava estancar o ferimento ao 1º Cabo Castro para que pudesse ir para a ambulância, onde seria posteriormente evacuado para o hospital de Tete, eu fiz a minha progressão de reconhecimento da situação, que aos poucos se ia tornando mais calma.
Consegui chegar junto do Unimog do Pelotão de Reconhecimento, onde estavam as “PICAS”. Naquela altura ainda não tínhamos os famosos detectores de minas electromagnéticos, que vieram trazer uma enorme evolução na segurança dos nossos soldados que tinham de se deslocar nas picadas, fazendo a sua segurança e protecção.
Foi por esta altura que o Furriel Mil Sapador, António Antero Encarnação Sousa, salta para cima do Unimog e começa a chamar os seus homens, para que começassem a picar toda a zona envolvente. Até porque com toda a certeza ainda haviam minas “anti-pessoal” espalhadas pelas bordas da picada.
O Furriel Sousa, saltou então para o chão e de “pica” na mão começou a picar o espaço em redor dele. Eu estava quase encostado a ele, pois tínhamos estado a falar. Aos poucos os soldados foram-se chegando e tomaram posições na picada de modo a garantirem alguma segurança. O Furriel Sousa de “pica” na mão estava na sua actividade, nas traseiras do Unimog.
O destino por vezes é cego e doloroso. O espaço que separava a ponta da “pica” das botas do Sousa era uma zona de minas, mas ninguém podia prever isso. 50 cm que separavam a vida da morte. O Sousa avança com o pé direito, com todo o cuidado e depois com o esquerdo. No momento em que o pé esquerdo se junta ao direito o Sousa acciona uma mina anti-pessoal que estava mesmo ali debaixo dos seus pés afastada poucos centímetros. Inevitavelmente que o accionamento da mina provocou o seu rebentamento. O Sousa accionou uma mina anti-pessoal simples com os dois pés juntos, o que lhes causou ferimentos nas duas pernas. Mais tarde veio a verificar-se que tinha ficado sem uma perna e com ferimentos na outra. Eu estava a menos de 1 metro do Sousa e não sofri (mais uma vez) nenhum arranhão.

Depois disto todos assumiram que era necessário “limpar” a zona para segurança do grupo. Foram detectadas e desactivadas ainda algumas minas anti-pessoal na zona. Com alguns feridos pelo rebentamento da primeira mina, a ambulância estava pronta para efectuar o regresso ao aquartelamento.
No dia seguinte na viagem de regresso, foram detectadas mais à frente a cerca de 250 metros do local do dia anterior, mais 1 mina anti-carro e duas anti-pessoal, que se presume terem sido colocadas durante a noite.
Já no quartel, era hora de limpar a memória dos acontecimentos do dia e para isso nada melhor que um bom duche de água fria. Foi o que fiz. Durante quase uma meia hora estive debaixo de água, revivendo todos os momentos porque tinha passado. As lágrimas corriam-me pelo corpo molhado misturando-se com a espuma do sabonete.
Não jantei nesse dia. A minha visão de guerra estava preenchida, daqui para a frente iria ser uma pessoa diferente, disso não restavam dúvidas. Um dia de cada vez.

VIAGEM DE COMBOIO DA BEIRA A MOATIZE

VIAGEM DE COMBOIO DA BEIRA A MOATIZE
A viagem de comboio que tivemos de fazer em Moçambique em Maio de 1971, pelas piores razões, (a guerra colonial) entre a Beira e Moatize, a terra das minas de carvão que se extrai quase puro da natureza, envolta em mistérios e tensões. Após a chegada do navio Niassa à Beira, o comboio foi o transporte para um local no fim do mundo que desconhecíamos, nas imediações da Barragem de Cabora Bassa na outra margem do rio Zambeze. 
Pior do que o cansaço e das indigestões das rações de combate com salsichas intragáveis made in Africa do Sul, era a ideia que transportávamos na cabeça, de como cada um se iria sair da lotaria da vida ou da morte nos 2 anos a ultrapassar. 

Embarcámos na Beira de manhã, percorremos toda a viajem num comboio pouca terra com assentos de madeira todo desengonçado a que só os nossos verdes anos conseguiam resistir. Mas na própria desgraça, há sempre momentos de alguma descontracção. Ao raiar da manhã, começamos então a ver a paisagem física e humana do imenso interior de África. 
Quando chegávamos a um apeadeiro (eram apeadeiros, não Estações como cá as conhecemos), vinham os meninos descalços e famintos a oferecer bananas e alguma água que retiravam dos poços, a troco da oferta de algumas latas de sardinhas de conserva e salsichas das rações de combate.
Quando partíamos perguntávamos: agora a próxima paragem é em tal sitio, ainda fica muito longe? É já aí à frente. 

O é já aí, eram mais 4 ou 5 horas de viagem. As distâncias de África, funcionam noutras escalas e quem estiver em Lisboa, por exemplo, o Porto é já aí. Com o avançar do dia chegou “ao pouca terra”, o sol impiedoso do distrito de Tete, onde se atingem temperaturas de mais de 40 graus. Agora era o calor, as moscas e os insectos a perturbar aquela viagem rumo ao desconhecido. E as visões mirabolantes estavam ainda para acontecer. À medida que avançávamos para a zona operacional de guerra, começamos a ver alguns camaradas nossos já velhinhos na guerra, meios cacimbados pelo isolamento de cabelos e barba mais parecido com a dos gringos do Oeste a patrulhar a linha a pé em grupos de apenas 2 ou 3 elementos por troço. Chegávamos à zona das terríveis minas comandadas à distância para que explodissem a meio das carruagens e fugir à protecção das máquinas rebenta minas colocadas à frente. Primeiro uma depois outra e depois dezenas de carruagens tombadas junto à linha com destroços ferrugentos deixados ao abandono depois do rebentamento das minas que nos alertavam que aquilo nos 2 anos que se iam seguir era mesmo a sério.
Ao anoitecer, com 24 horas de viagem e a cheirar àquelas intragáveis latas de salsichas da ração de combate, alcançávamos finalmente Moatize, terra pequena mas onde havia já uns vestígios de civilização tivemos a oportunidade de comer um bom bife com batatas fritas, no meu caso numa pequena cantina de uns senhores da Beira Baixa que há alguns anos ali se tinham instalado à semelhança de muitos outros cantineiros, chamavam-se assim e até tiverem um papel interessante na própria guerra, pois alguns davam-se bem com os guerrilheiros os quais iam tomar umas “canhas” frescas às suas cantinas espalhadas pelos locais mais recônditos do território. Esses cantineiros procuravam riqueza fácil a vender cerveja fresca e outras bebidas que "punham a cabeça grossa para esquecer tristeza" bastando para isso investir em 2 frigoríficos a petróleo. 
A tropa velhinha que estava por ali com os camuflados já a dar para o debotado, perguntava em jeito de gozo e de humor negro aos checas acabadinhos de chegar da Metrópole com as fardas aprumadinhas e ignorantes em matéria de guerra. Para onde vai a tua companhia pá? Vai para um local que nos disseram na Beira que se chama Chipera !!!
Ah, Chipera, do outro lado do rio. Olha estão fud..... , poucos saem de lá vivos.
Em cima do cansaço e da alucinação causada pelas carruagens desfeitas, do cheiro nauseabundo das salsichas, tínhamos outro inimigo: o boato. Não era por acaso que depois começámos a ver a psico montada pela tropa com cartazes em Moatize e depois na Picada até Chipera a dizer aos recém-chegados: cuidado não dês ouvidos ao boato, o boato fere mais que uma lâmina.
O que se passou nos 2 anos a seguir foi árduo e triste...
Um agradecimento especial ao meu amigo José Abílio Mourato.

terça-feira, 21 de abril de 2020

21-MAIO-2020

21-4-2020 Faz hoje 49 anos que no velho NIASSA zarpávamos de Alcântara-Mar rumo a Moçambique.
Sem qualquer nostalgia, deixa-me recordar o essencial. Após a instrução da especialidade no RI 15 (Tomar) e da instrução de aperfeiçoamento operacional em Santa Margarida, embarcamos no caminho de ferro até Alcântara Mar.

Após as formalidades inerentes ao embarque, lá zarpámos para inicio da viagem.
No tombadilho do navio com o Capitão Melo, Capitão Raimundo e com o Nicolau, conversávamos sobre o destino do nosso Ultramar.
Bons tempos em que o Capitão Jeremias nos animava com as suas áreas ao piano e em que o Nicolau prontamente aprendeu a jogar o bridge (só com observação).
Parámos em Luanda e sinto saudades da banda militar a tocar “Angola é nossa” e eu vos ordenei a posição de sentido.
Eu era o Comandante Militar a bordo e o Comandante de Bandeira era o Capitão Tenente Fiandeiro, o que permitiu um relacionamento extraordinário.
Foi assim que na passagem do Cabo simulámos o desembarque, tendo para o efeito sido lançada a escada de portaló.
Depois a orquestra tocava o “barrete sobre a orelha” e houve um animado beberete. Chegámos a Lourenço Marques (e não a Maputo, que é o nome de um rio) a 13 de Maio. Comemorava-se o 13 de Maio na Namacha e, por isso, a cidade estava deserta.
Atracámos atrás do ANGOCHE com um rombo de uma explosão.
Recebemos o Movimento Nacional Feminino que nos entregou aerogramas e bolas de futebol. Visitámos essa maravilhosa “Pérola do índico”, a capital de Moçambique. No trajecto de Lourenço Marques para a Beira fomos brifados pelos Chefes de Repartição do Quartel General, a quem pedi para adocicarem a situação da guerra. Desembarcámos na Beira onde fomos integrados por 3 Grupos de Mesclação de tropas de Moçambique que completaram as companhias operacionais.
Aquando das minhas palavras de recepção chamei o Capitão Jeremias, dando-lhe nota de quanto seria profícua a sua integração.

Seguimos, então, de Caminho de Ferro até Moatize, donde seguimos em coluna alta para os nossos destinos no dia seguinte. Aí pernoitamos (na vinda para a Zambézia já possuía uma ponte cujo projecto foi elaborado pelo eminente Engenheiro Edgar Cardoso).
No dia seguinte lá fomos a caminho do destino. Na Estima ficou a Companhia 3355 que comboiava as colunas cimenteiras de Moatize para o Songo, chegando a atingir 3 km de extensão.
Ainda se encontrava na Estima o COFI (Comando Operacional das Forças de Intervenção), mais tarde substituído pelo CODCB (Comando Operacional da Defesa de Cahora Bassa).
Quando chegámos à Chicoa, o “Almirante” Coutinho foi  primeiro embarcar um hipopótamo que boiava no rio Zambeze e só depois nos transbordou.

A Companhia de Caçadores 3356 seguiu para Norte indo basear-se na Cantina de Oliveira, onde teve uma missão difícil, pernoitando em abrigos térreos.

Chegámos já de noite, no dia 16 de maio, à Chipera.
A Companhia de Caçadores 3357, por força do sucedido com o hipopótamo, só seguiu ao seu destino no dia seguinte. Aí sofremos as primeiras acções inimigas e sofremos as primeiras baixas quando as colunas que se deslocavam à Chicoa accionavam as primeiras minas.

Em Dezembro de 1971, o Movimento Nacional Feminino ofertou-nos um disco com fados e alusões da Amália Rodrigues e uma mensagem do Eusébio (ambos jazem no Panteão Nacional).
Na rotação para a Zambézia, em Setembro de 1972, puderam então visitar o Songo com um píparo lanche de despedida, visitando a barragem quase na sua fase última de construção.
 
Quando lá chegamos, só existia a ensecadeira e o desvio do rio Zambeze. Das forças que integraram a guerra do Ultramar, de Angola, Guiné e Moçambique, se podem orgulhar de ter cumprido na sua globalidade a missão confiada. Lá está a barragem, lá ficou o aldeamento da Chipera com substancial apresentação de populações operadas no nosso tempo.

Deixámos uma Zambézia totalmente pacífica, depois de em tempos na década de 60 se ter operado várias acções de guerrilha. Que todos nós com fé, esperança e coragem e a protecção do nosso Capelão Padre Augusto, consigamos ultrapassar este momento difícil da pandemia que enfrentamos. Aquele abraço,  Figueiredo.

21 DE ABRIL DE 1971

21 de Abril de 1971
Neste dia muitos de nós deixávamos para trás a família e os amigos.
Foi neste dia que o Batalhão de Caçadores 3843, embarcou rumo ao Ultramar a terras de Moçambique, no navio português "NIASSA".
Foram muitas as fotografias tiradas na altura do embarque e muitas foram também as saudades que ficaram.
As imagens jamais serão apagadas da memória de todos aqueles que tiveram viveram aquelas horas de despedida. Uma despedida dos pais, dos filhos, da namorada, de todos os amigos que iam ficar para trás.

Muitas lágrimas, muita angústia naqueles que partiam e certamente uma enorme ansiedade no coração dos que ficavam.
Foram dias muito difíceis para toda a comunidade e durante quase um mês de viagem por mares nunca antes navegados, por nós, lá chegámos a Moçambique, para iniciar uma nova etapa nas nossas vidas.
De todos os bravos soldados que tombaram na guerra o estado português, fez sempre questão de não os repatriar, para que não se ficasse a saber que os filhos de Portugal também tombavam em África.
Neste dia de 21 de Abril de 2020, 49 anos foram passados e hoje celebramos mais uma efeméride.
Um abraço amigo para todos.

sábado, 14 de março de 2020

COMUNICADO


Devido ao surto do COVID-19 (Corona Virus), a Organização tendo em atenção as medidas sugeridas pela DGS, colhido o parecer de alguns camaradas, bem como a concordância do responsável pelos encontros, o António Espírito Santo, informa-se todos os ex-Camaradas do BCAÇ 3843 – CCS – 3355 – 3356 – 3357, que o 28º ENCONTRO convívio, que se iria realizar este ano a 23 de Maio, em Viseu, foi 
SUSPENSOaté data a anunciar posteriormente.
Esta é uma medida pro-activa, afim de minimizar riscos a todos os eventuais participantes no 28º Encontro.
Iremos estudar a realização do nosso encontro, numa outra data, logo que a situação evolua favoravelmente. Pensamos ser esta a melhor solução para todos nós.
Agradecemos toda a disponibilidade demonstrada até ao momento e desejamos que todos juntos consigamos ultrapassar esta fase de forma positiva.
A segurança é uma prioridade para a todos nós. 
Abraço amigo, para todos.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

AVISO DO 28º ENCONTRO

28º ENCONTRO
DO BATALHÃO DE CAÇADORES 3843
CCS-3355-3356-3357 

Camaradas, como já está na rua e como certamente já perceberam este ano vamos tentar reunir as companhias que fizeram parte do BCaç 3843. 
Nesse sentido já começámos a enviar SMS a dar conhecimento da data do encontro, para que possam atempadamente organizar a vossa vinda no dia,
23 de MAIO de 2020 (sábado).

ESTAMOS A DESENVOLVER TODOS OS ESFORÇOS PARA QUE A GRANDE MAIORIA DOS CAMARADAS POSSA ESTAR PRESENTE, DE MODO A QUE ESTE DIA FIQUE MARCADO, COMO UM DIA INESQUECÍVEL. O LOCAL JÁ CONHECIDO DE MUITOS, TEM EXCELENTES CONDIÇÕES PARA A REALIZAÇÃO DO NOSSO CONVÍVIO.


*** PROGRAMA DO 28º ENCONTRO ***

  • Concentração junto ao Hotel Grão Vasco, onde podes estacionar;
  • Celebração de uma missa na Igreja de S. Francisco, pelas 11,30h;
  • Deslocação para o Hotel Grão Vasco, onde será servido o almoço;
  • Almoço, Confraternização e discursos;
  • Fotografia do Grupo de Ex-Militares da CCS - BCaç 3843 e familiares, no jardim do Hotel;
  • Corte do Bolo Comemorativo e brinde de despedida.


Este ano iremos privilegiar o contacto via SMS e EMAIL, só enviaremos cartas aos que não têm outra forma de contacto.
Abraço a todos

sábado, 21 de dezembro de 2019

NATAL DE 1971


Ao visualizar (conforme a minha equidade visual) o Facebook alusivo ao Natal de 1971, fez me recordar dias inesquecíveis passados no comando do nosso batalhão. Funciona para mim como um bálsamo reconfortante. Em Dezembro de 1971 verifiquei o valor dos sentimentos humanos.
Tinha-me deslocado em serviço ao comando operacional da Cabora Bassa. Ali recebi dada coluna sementeira escoltada pela companhia da Estima, duas caixas de bacalhau (lombada de sete centímetros) que o Pai do Alferes Teixeira (havia grande patriotismo) enviou para a ceia de Natal.
Nessa mesma coluna regressavam do hospital de Tete todos os militares que ali se encontravam com baixa e queriam passar o Natal juntos aos seus camaradas. Com a altitude da Estima o avião que nos transportou para Chipera não poderia descolar com tamanho peso. O piloto do Airlander, compreendendo a situação, avaliou meticulosamente o peso e consegui levantar voo com todos os apitos sonoros a contrariar. Com estes atrasos todos, aterrarias na Chipera já com noite escura, mas a experiência do então capitão Rodrigues, que tinha sempre preparadas as latas de cerveja com mechas e gasóleo, fez com que a aterragem parecesse que estávamos no Figo Maduro.
 

No dia seguinte, vinte e quatro, montamos, na parada principal, mesas em U para todos participarem na ceia de Natal. 

Das autoridades administrativas (administrador de posto e seu adjunto) todos se encontravam ausentes, pelo que, à minha direita, se sentou o interprete (Chico) que “carregado” de “Pombi” mal provou o bacalhau. Estava só, já que o então major Vicente se encontrava de baixa por ferimentos em combate. A segurança teria de existir e foi destacada uma secção reforçada para os morros adjacentes ao aquartelamento, já que em 24 de Setembro do mesmo ano havíamos sido atacados com fogo de morteiros, canhões sem recuo e metralhadoras pesadas sem que houvesse qualquer ferimento. Recordo que o acto sanitário para a secção destacada (Furriel Espirito Santo) foi voluntariamente exercido á pessoa do Furriel Karin (na altura autoridade máxima sanitária). 
Além das batatas com bacalhau e couves (das rotas adjacentes ao Ribeiro de Mefidisi (habilmente cultivadas pelas populações nativas). 
As “iguarias” foram preparadas pelos nossos cozinheiros (que foram estagiários de instrução de aperfeiçoamento do Hotel Alvor).
Já agora, recordo também o Natal de 1972, passado em Mocuba, na Zambézia, nessa altura com um serviço espectacular de bolos e assados, trazidos pelas senhoras daquela cidade. Não esqueço que os administradores de Mocuba Sisal sendo cidadãos suíços também nos enviaram as suas iguarias.
Recordo que o Alferes Santos, que foi decepado de seu pé com uma mina, compareceu com o seu Pai a todos os nossos desembarques no aeroporto Figo Maduro.
Este calor humano, que se verificou, foi uma compensação para a ausência dos nossos entes-queridos.
Feliz Natal e um grande abraço.
Figueiredo
(ex comandante do BCaç 3843)

terça-feira, 15 de outubro de 2019

HOMENAGEM AOS COMBATENTES

HOMENAGEM AOS COMBATENTES
DA GUERRA DO ULTRAMAR

Combatentes portugueses
que obrigado fostes
combater em terras distantes
e cumpristes tal dever,
pois não fugiste por medo
porque nem isso poderias ter.
Cobarde também não foste
e deste o corpo às balas "cegas".
Pátria ingrata para ti
que te abandonou
e se esqueceu
do teu sangue e do suor derramado
em nome de Portugal.
Muitos combatentes ajudaram-te a libertar do monstro que te consumiu
e a instalar novos protagonistas
em nome da democracia.
Afinal que foi feito por ti
cujas insónias continuam
na tua memória, ficando gravados
os tormentos que por lá passaste!
Sonhos nocturnos e desassossego
constante na revolta contra a ingratidão.
Os homens continuam impávidos e serenos como se nada tivesse havido.
Já nem se respeita a família ou amigos que deram as suas vidas, ou que ficaram com traumas e alguns mutilações!
Onde páram os princípios
que defendemos e que tanto têm
servido de "capacho e oportunismo"
nas mãos de gente insensível?!
Quando chegará a aurora
boreal a este nosso Portugal
dos bons acolhimentos,
cujos mantimentos nem são humildemente distribuídos
pela ganância e o egoísmo
de uma desumanidade materialista.
Viva os homens de boa vontade
que em nome da liberdade
esperam ser reconhecidos.
14-10-2019
Ludgero Faleiro
*CART 7258/73 - Chipera, Moçambique.

sábado, 25 de maio de 2019

27º ENCONTRO DO BCAÇ 3843

27º ENCONTRO DO BCAÇ 3843
BOLEIROS - FÁTIMA
25 DE MAIO DE 2019







 


 




 
 
 
 
 
 


 
 


 

 
 
 
 

 
 


Obrigado a todos os que estiveram presentes neste encontro de velhos amigos. Muitos foram os que apesar de estarem longe não quiseram faltar à chamada. 
Já estamos a trabalhar no sentido de organizarmos um Super Encontro em 2020, com todas as companhias do BCaç 3843.

Bem hajam pelo vosso esforço