quinta-feira, 27 de setembro de 2018

PARA QUE A MEMÓRIA NUNCA SE APAGUE...

Para que a memória não se apague.
Neste vídeo podemos ver imagens captadas em Chipera-Tete, na evacuação de feridos. 
Neste vídeo podemos ver alguns camaradas, O Isac, Magid Silva Karim Ahmad e outros. As fotos estão na internet, sendo por isso de domínio público.
Ao clicar sobre a foto será redireccionado para o video.
Victor Pessa - Furriel Miliciano

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

CHIPERA MAIO 1971

Entrávamos em Chipera, no distrito de Tete, entre Maio de 1971 e Outubro de 1072, fazendo parte da CCS do BCAÇ 3843, foram 19 meses passados com alguma dureza, pois desde a nossa chegada a esta localidade que ficava próxima da barragem de Cabora Bassa, os ataques começaram a ser mais frequentes, ou não estivéssemos numa zona 100%.
Com o passar dos dias lá nos fomos habituando aquela humidade que se entranhava em nós, aquele calor absurdo, que nos impedia de noite de pregar olho.
Enfim, de uma maneira ou de outra todos passámos por situações idênticas.
Resta-nos recordar os momentos bons, aqueles em que confraternizávamos, quer jogando a bola, o voleibol, ou outra actividade.
Nessas alturas toda a comunidade participava, chegando mesmo a formarem-se algumas equipas de autênticos "profissionais".
Pessoalmente não tinha por missão ser um operacional, apesar de ter tido treino militar para tal. As minhas tarefas eram outras.
Sempre que uma operação militar chegava ao fim (quase sempre com sucesso), havia lugar a um festejo.

Era uma oportunidade para confraternizarmos e beber uma Laurentina fresca.
Nestas patuscadas o difícil era arranjar conteúdo para tal, no entanto com a ajuda de alguns elementos do aldeamento lá se conseguia atingir o objectivo final.

O grupo era divertido quando tinha oportunidade para estas manifestações.
Inventavam-se paródias, contavam-se anedotas, cantava-se a música do Zeca Afonso e outros também populares na época.
Estas patuscadas terminavam quase sempre com uma sessão de fados, onde o Tudela de CCAÇ 2758 era o interprete principal.

Apesar do tempo passado, muitos são os que ainda sobrevivem.
Victor Pessa - Furriel Miliciano

DUAS IMAGENS. DUAS ÉPOCAS...

Duas imagens, duas épocas diferentes.
Na primeira imagem uma vista recente de 2018, de todo o conjunto de Cabora Bassa.
Aqui um pormenor da zona das turbinas em 1971

Victor Pessa - Furriel Miliciano

C.CAÇ 3355 VISITA A BARRAGEM DE CABORA BASSA

Em 1971, um grupo de militares da C.Caç.3355, visitaram a barragem de Cabora Bassa.
Repare-se na grandeza do túnel (largura), de não sei quantos Kms de comprimento.

Estes túneis eram escavados na rocha e davam acesso, entre outros, à casa das máquinas (na altura considerada uma das maiores galerias do mundo).
Orlando Cardoso José

terça-feira, 14 de agosto de 2018

COISAS DA GUERRA COLONIAL


Coisas da Guerra Colonial, de Moçambique, Tete e da Chipera:

Amigos:
Faz hoje, dia 06.08.2018,  46 anos que partíamos num BOEING das forças Armadas  rumo a Moçambique, integrados na C.CAÇ 4241
Como já vai distante aquele dia 6 de Agosto de 1972
Éramos jovens,  todos com 21 ou 22 anos, atirados para uma aventura rumo ao desconhecido, ao perigo e  ao sofrimento,  durante 2 anos, o tempo que demoravam as comissões,  fora o “mata-bicho”, como então o baptizávamos,   que eram sempre mais 2 ou 3 meses, até que fossemos rendidos.
Como eram  difíceis ultrapassar  aqueles últimos meses de comissão.

Dos que tombaram por lá,  aos que entretanto faleceram,  ainda por cá andam alguns  para recordar  as memórias daqueles tempos vividos por jovens de Norte a Sul e ilhas que o acaso juntou e que viveram experiências comuns que jamais se apagarão da nossa alma.
Somos uns felizardos, os que por cá continuam,  agora que estamos  quase a atingir o estatuto de septuagenários.

Hoje,  no dia de mais um aniversário do  nosso embarque, quero enaltecer o espírito de camaradagem que desenvolvemos naquelas paragens de fim do mundo.
A  amizade e laços de fraternidade  que desenvolvemos  não foi só entre nós,  mas também com as populações locais a viver no maior estado de abandono  e sofrimento.
A este propósito,  lembram-se do Régulo Ventura, exímio negociador com a tropa de “troca galinha por cerveja fresca” ,  que estava no aldeamento da  Chiboeia onde tínhamos um pelotão sempre destacado?

Através da internet quis o acaso que fosse dar  com um dos mais de 30 filhos do  velho Régulo, o Rafael Ventura,  que em 1972 tinha apenas  2 anos e que foi viver com a mãe para a Estima, mal conhecendo o pai, entretanto assassinado  em 1987 na guerra civil entre a Renamo e a Frelimo  O Rafael,  rapaz culto e educado, com esforço e dedicação  venceu o estigma dos desfavorecidos da vida e é hoje um jovem quadro de Moçambique  vivendo em Maputo.


Há dias visitou Portugal e combinámos encontrarmo-nos em Portalegre ele, eu, o Ferreira e o Nuno.
Foi um dia de recordações inesquecível, o Rafael contou-nos,  entre outras  coisas que em 2014 desceu às suas origens foi visitar a Chiboeia e alguns familiares que ainda lá vivem. Foi de Barco  pelo lado da Estima, atravessou o regolfo da Barragem de Cabora Bassa, (quase 2 horas de percurso - antes de batelão na Chicoa, ainda sem a barragem,   fazia-se em 20 minutos) ) guinou para a esquerda e  desembarcou próximo da Chiboeia (Chissete como se chama agora) que está quase toda coberta de  água mas que continua com população,  agora dedicada à pesca,  o principal alimento.


Neste dia do nosso 46º.  aniversário de embarque para Moçambique, envio-vos algumas fotos do nosso encontro em Portalegre, assim como  uma do velho Régulo CHIBOEIA,  um novo mapa de Tete com a designação dos lugares à Portuguesa e um relatório actualizado,  em 2014 sobre os índices de desenvolvimento actual (quase igual ao do nosso tempo) do distrito de Marávia ao qual pertence a mítica Chipera onde queimamos 2 anos da nossa melhor  juventude  mas que nos enriqueceu sob o aspecto de maturidade e responsabilidade de meninos acabados de sair debaixo das saias da mãe.

Um abraço do Mourato  
José Abílio Mourato - Furriel Miliciano

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

NÃO SE PODE ESQUECER...

Não se pode esquecer
Chipera. Tete. Moçambique. 
Sábado, 21 de Julho de 1973. 
Passaram 45 anos. 

Nesse dia escrevia eu no meu diário: " Hora triste aqui em Chipera. Hora de luto. Morreu o Cláudio, o furriel Cláudio. Estou indeciso se hei-de escrever ou não o que se passou. Decido a fazê-lo. O futuro e os homens do meu país hão-de saber a juventude que sacrificam. 
Os factos sucederam-se instantaneamente, em torrente. Não foi preciso 2 horas para se passar da Berliett minada e dos dois feridos graves para a morte do Cláudio. Passavam poucos minutos da 1 da tarde quando o Viegas de Sousa entra no meu quarto e diz que o Ferros foi ao ar.
-Parece que vinha do Macane para o Machesso de rebenta-minas, disse o V. de Sousa. 2 feridos graves e 2 ligeiros. Como teria ficado o Ferros, perguntava-se. 
Momentaneamente o caso cai no esquecimento. Só por uns minutos até chegar o alferes Castro a ordenar ao furriel Brasil para fazer uma 2ª mensagem a pedir rapidez na evacuação. Quem são os feridos, pergunto eu. 
O Coimbra, o Moreno e o Cláudio. Passados mais uns largos minutos, a triste nova cai, fria, nua, dilacerante: o Cláudio morreu. E todos os que estavam neste quarto sentiram um baque no coração. A imagem do Cláudio, faces queimadas, ombros para o largo, perpassou pela minha memória. 
Conhecia-o desde a recruta em Santarém dois anos antes. O que dirão a isto os donos do meu país que exploram o povo destas terras, os Mellos, Os Chapas, os Bulhosas. 
Que dirão eles se eu lhes disser que o Cláudio, quando foi de férias, há 3 meses, criou o seu lar, e, mesmo sem ter casado, já trazia a aliança no dedo? 
Imagem terna não é, senhores capitalistas? 
Para vós é mais um entre tantos, que importa. 
Mas talvez um dia isto mude, senhores.
E mudou. 
Não morreram mais Cláudios. 
António Marquês

domingo, 17 de junho de 2018

MERCADORIA FORA DE PRAZO


São poucos aqueles que nos respeitam ou respeitaram. Quando acabamos o nosso serviço militar no ultramar, fomos deixados num caís qualquer de Lisboa, como MERCADORIA FORA DE PRAZO, esta é a verdade nua e crua.

Não me venham com conversas da treta, mais o patriotismo, mais o Portugal de Caminha a Timor.....e tantas outras frases....feitas à medida das circunstâncias e do momento. 
Depois de África, depois da guerra, mais ninguém se interessou por nós. Alguém quer saber dos ex-combatentes que vivem na rua? Que trazem com eles doenças de África, como por exemplo o SPT. .......Sim...sim....o senhor, Presidente da República e outras entidades, lá se dão ao trabalho, de vez em quando, lá descem até à realidade e visitam, com um enxame de jornalistas e fotógrafos para registarem o "momento"...os "destroços" daquela guerra ultramarina. 
Vejam os homens que defenderam Portugal, vejam a mão estendida para mais uma esmola com registo televisivo, Venham lá as fanfarras, mais o dia de Portugal, mais as divisas amarelas. 
Nós seremos sempre os Esquecidos,,,os gajos que não conseguiram GANHAR aquela guerra, os meninos que foram de FÉRIAS até África...... A verdade, meus caros camaradas/irmãos/amigos.. é esta....Se não existissem os almoços de confraternização, se não existisse a amizade que ainda nos une, se não existisse aquela força invisível que nos impele a estarmos uns com os outros.....se não fosse a nossa vontade de estarmos juntos.....Aquela guerra já estaria esquecida. 
A prova, provada do que digo, do que escrevo, é que existem centenas de militares, nossos irmãos, que ainda estão sepultados num qualquer cemitério africano.Aquela guerra ... não foi um sonho...MAU, foi a nossa REALIDADE. Abraço a todos
José Nobre - 10 de Junho de 2018