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terça-feira, 9 de junho de 2026

O CASO ANGOCHE

O maior mistério da Guerra Colonial em Moçambique é, para muitos, o Caso Angoche.

Em 23 para 24 de abril de 1971, o cargueiro português Angoche (da Companhia Nacional de Navegação) foi encontrado à deriva, a arder, nas águas do Índico, a cerca de 30 milhas da costa moçambicana, entre Quelimane e a Beira. A bordo estavam 23 tripulantes + 1 passageiro (um reformado dos CFM chamado José Pedro, com o seu Peugeot 404). O navio levava material de guerra (munições e possivelmente napalm) carregado em Nacala por elementos da Força Aérea Portuguesa.d4f2ac

Quando o petroleiro Esso Port Dickson (panamiano) o encontrou, não havia ninguém a bordo — só um cão e um gato abandonados. O navio foi rebocado, mas a tripulação desapareceu por completo. Nunca se encontraram corpos.

As versões que circulam







Sabotagem por desertores portugueses ligados à ARA (braço armado do PCP), com ajuda soviética ou chinesa. A PIDE/Casimiro Monteiro investigou e apontou para explosivos colocados na popa (zona dos tripulantes brancos), enquanto a proa (tripulantes africanos) mostrava sinais de fuga precipitada.

Ação interna do regime ou de Jorge Jardim (poderoso empresário e figura com "exército privado" em Moçambique), possivelmente para expor vulnerabilidades e pedir mais apoio militar (nomeadamente para a Marinha).

Raptados pela FRELIMO ou aliados, levados para a Tanzânia (notícias de rádios de Brazzaville, Moscovo e Pequim falaram em sobreviventes em Dar-es-Salaam). Alguns relatos falam em execução posterior em Nachingwea.

Outros apontam para "voos de morte" (lançados ao mar de avião para serem comidos por tubarões).

Investigações envolveram a PIDE, serviços sul-africanos, rodesianos, britânicos e até a CIA. O caso nunca foi resolvido. Os relatórios da PIDE existem (alguns na Torre do Tombo), mas cheios de contradições. O navio acabou por ser rebocado para Lourenço Marques e, com o tempo, afundou.

É um daqueles casos que mistura Guerra Fria, intrigas internas do regime salazarista/marcelista, sabotagem.